Paixão pelo e no trabalho

Por Sylvio Alves de Barros Netto

Domenico de Masi lançou, no final da última década, o conceito do “ócio criativo”, expressão que deu origem a um livro de mesmo nome. Segundo o sociólogo italiano, de 69 anos, é possível alcançar um nível de atividades que envolva diversão, trabalho e estudo ao mesmo tempo. O escritor chega a elogiar o Brasil, pela cultura do equilíbrio entre trabalho e lazer. A obra é sucesso por aqui e tornou-se praticamente um mantra entre os menos adeptos do trabalho duro. Finalmente alguém entendeu o significado de todos aqueles dias na praia…

Um exemplo recente da aplicação da teoria do filósofo pode ser o Google, eleita em 2006 a melhor empresa para trabalhar nos EUA pela revista Fortune. A companhia permite que 20% do tempo de seus funcionários seja dedicado a projetos pessoais. Seria um benefício ou o reconhecimento formal de que as pessoas já fazem isso, talvez até em maior proporção, no horário comercial?

Algumas corporações tentam limitar o acesso à web, represando um rio com fluxo em crescimento exponencial. Uma pergunta aos profissionais de recursos humanos: haverá concreto suficiente para a represa, ou está na hora de preparar os surfistas para essa onda? Sim, há rios com ondas, e adivinha de quem é o recorde de permanência e distância do surfe em ondas de rio, com direito a Guinness e tudo? De um paranaense, na pororoca.

O Brasil está sempre na liderança de permanência na internet. São 21 horas e 44 minutos mensais, 15,5% à frente dos Estados Unidos, o segundo colocado. Em solo tupiniquim, já são 42,5 milhões de pessoas com algum tipo de acesso à web, segundo estudo do Comitê Gestor da Internet no Brasil, uma parceria entre o Ibope e o IBGE. Somos líderes também em relação ao tempo gasto em sites de comunidades, com 20% do tempo. Os espanhóis, por exemplo, gastam 5,1%, enquanto os americanos, apenas 2,8%.

Enquanto isso, a Web 2.0 compete cada vez mais com o chamado tempo produtivo e criativo das pessoas durante o expediente. Ou a “web social” (sinônimo de Web 2.0) está finalmente se transformando no ambiente ideal para o que o sociólogo italiano chamou de atividades que envolvam lazer, trabalho e estudos ao mesmo tempo? Eu adicionaria transações à lista.

Afinal, não estamos entrando na era em que o vínculo motivacional finalmente prevalecerá sobre o empregatício? Ele sempre foi o mais importante, certo? Ou, como gostam os publicitários, era do share of passion? No final das contas, o que mais importa é a capacidade de um projeto, marca, empresa, comunidade ou produto estimular nossa paixão em trabalhar, comunicar, ajudar, compartilhar, criticar ou consumir – ações cada vez mais presentes na plataforma web, em qualquer lugar, a qualquer hora.

Motivação e paixão vão muito além do dinheiro, como bem definiu o psicólogo e consultor americano Abraham Maslow, por meio da hierarquia de necessidades, ou Pirâmide de Maslow. Esse campo nós conhecemos tão bem quanto aquele em que duas traves servem de extremidade. Sim, é isso mesmo: temos tudo para alçar o Brasil à condição de líder, expert mundial em share of passion, principal fator que transforma a Web 2.0 de opressiva em libertadora. De dispersiva para eficiente e produtiva. De competitiva para colaborativa. De fechada para transparente. De independente para interdependente. Para esse salto, o Brasil pode virar o jogo ser campeão e virar o jogo. O empreendedorismo pede imaginação. Temos que ser capazes de pensar fora do quadrado. Começar do zero hoje é um diferencial. Ganhar ou perder depende só da gente. Vamos ser os brasileiros que se apaixonam sempre e pensam grande, além daqueles que não desistem nunca!

Sylvio Alves de Barros Netto
Sócio-diretor da www.MinhaVida.com.br

FONTE: Voce S/A

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